PRIMEIROS ANOS

           Amorim de Carvalho nasceu no Porto, a 17 de janeiro de 1904 (filho de Júlio Diniz Amorim de Carvalho, farmacêutico diplomado pela Escola Médica do Porto, e de sua mulher, Maria Cândida Caldas de Matos, sem profissão, neta do poeta romântico António Pinheiro Caldas), numa família de tradição católica, com origens luso-espanholas, do Norte da Península. Sua vida escolar foi perturbadíssima, por dificuldades financeiras a que sua numerosa família esteve sujeita. Não completou os estudos secundários, mas estudou em casa, tendo adquirido conhecimentos de grego e aprofundado o latim, o francês e, sobretudo, o inglês, interessando-se desde cedo pela cultura e literatura anglo-saxónica.

Frequentou, entre outras, a Escola Anglo-Latina do escritor José Teixeira Rêgo. Mais tarde, ao mesmo tempo que, com muita frequência, tinha acesso aos volumes da «Bibliothèque de Philosophie Scientifique» que lhe eram emprestados por T. Rêgo, a cultura francesa começou a preponderar no seu espírito. Lia correntemente, também, o castelhano, o italiano, o provençal, o catalão e os dialectos neo-latinos medievais inclusivamente nas suas formas poéticas. Conviveu com Bazilio Telles (pensador materialista, helenista, «anti-semitista intransigente», muito amigo da família Amorim de Carvalho) pelo qual veio a demonstrar uma imensa admiração intelectual e moral, o que reforçou a formação que lhe fôra dada pelos pais, determinando nele a valorização máxima da independência intelectual e da firmeza do carácter. Não resultou, no entanto, daí, qualquer influência da obra de B. Telles no pensamento de Amorim de Carvalho. Na adolescência, perdeu a fé religiosa. Recebeu a formação política, republicana e liberal dominante na época; mas conviveu com familiares e amigos que, além de terem uma visão bastante crítica do sistema político que vigorou no país até à Revolução de 1926, alargaram significativamente o seu horizonte intelectual. (Para os anos da juventude e como contribuição ao conhecimento do meio social e familial que foi, nesse período da sua vida, o de Amorim de Carvalho, vid.: Júlio Amorim de Carvalho, Dois escritores portuenses. O poeta António Pinheiro Caldas e Amorim de Carvalho, Casa Amorim de Carvalho, Prometeu, Porto, 2000, págs. 32-38, e Achegas para uma biografia: Amorim de Carvalho, «Gil Vicente», Guimarães, 4.ª série, n 3, janeiro-dezembro de 2002, págs. 62-66; João Manuel Amorim de Carvalho Borges, Maria Amélia Camossa Saldanha Amorim de Carvalho Borges. Seu percurso e contributo para a dimensão histórica da família, ed. do autor, Porto, 2002, excelente estudo genealógico enriquecido com iconografia).

 

SISTEMATIZAÇÃO DO PENSAMENTO E INTERVENÇÃO POLÉMICA

            A sistematização do pensamento de Amorim de Carvalho surge precocemente, no começo da década de trinta, sobretudo no domínio da estética, mas já, aí, alicerçada naqueles fundamentos, explícitos e implícitos, que vão permanecer e presidir à diversificação desse pensamento, ao seu alargamento a outras perspectivas ou a outros sectores do conhecimento. Sua intervenção na vida cultural portuguesa será parcialmente polémica e combativa, mas sua obra poética, e sua crítica literária com fundamentação científica e filosófica, apontavam ― insistimos ― para um pensamento filosófico sistematizado; acção combativa numa luta contra as turpitudes do ambiente intelectual português (vid. casos dos periódicos «O Diabo», «Seara Nova», «Pensamento», «Portucale» ― sendo em consequência do tenebroso assalto a esta revista, de que era co-director, que funda e dirige a revista «Prometeu», de 1947 a 1952, imprimindo-lhe característica orientação estética e filosófica). Intervenção polémica, ainda, na crítica orientadora e pedagógica, de oposição à decadência do modernismo, na literatura, e de rectificação do que era sustentado pelo grupo da chamada «filosofia portuguesa»: teve, consequentemente, que expor o seu pensamento em estudos (em parte) de carácter crítico e de análise às obras de outros autores. Primeiro, violentamente combatido; viu organizar-se, depois, sistemática e metodicamente, o silêncio à volta do seu nome. Fôra, efectivamente, «como poeta e como crítico, o mais manifesto opositor das teses da Presença» cujos mentores e críticos não tiveram a preparação científica nem filosófica de Amorim de Carvalho. Plenamente consciente do cêrco que se lhe fazia, em várias ocasiões evocará ele o ambiente deletério em que vivia, impregnado de mentalidades hostis, de facto, ao espírito objectivo, científico e filosófico. Explicou essa situação nefasta do meio intelectual português, como tendo origem na «decadência generalizada afectando o pensamento ético, político, social, filosófico e estético», imposta pelo homem-massa, pelas elites decaídas ou pseudo-elites, utilizando as técnicas modernas da propaganda organizada, o elogio mútuo.

 

PEREGRINAÇÕES

            Quase não teve acção política, por razões explicadas no prefácio ao seu livro O fim histórico de Portugal. Residindo no Porto, em companhia de seus pais e irmãos, numa família com tonalidades marcadamente patriarcais, abandona essa cidade e, com a mulher, Ester Rodrigues (também, como ele, de origem luso-espanhola do Norte peninsular), e o filho, instala-se em Lisboa, em 1953, onde passou a viver modestamente ― em parte, da colaboração intensiva nos jornais da capital do país. Fez várias mas infrutíferas tentativas, junto de instituições estatais e privadas para, com propostas de colaboração ao serviço da cultura do seu país, melhorar sua situação financeira. Frequentou algumas das tertúlias lisboetas dos anos cinquenta e sessenta. Foi nomeado, em 1958, vogal do Conselho de Programas da Emissora Nacional, mas logo perdeu essa função. Desde 1962 foi membro da Internationale Gesellschaft für Vergleichende Kulturforschung, de Salzburg, e da Société Européenne de Culture, de Veneza. Membro fundador da Sociedade Portuguesa de Escritores, demite-se avec fracas, por considerar imoral a conduta da Sociedade. Em 1963 participa activamente do I Encontro de Escritores de Angola, realizado nesta província ultramarina portuguesa. Em 1965, desgostoso com a degradada situação intelectual da pátria, transfere a residência para Paris. Será um exílio definitivo. Nesta capital, onde continuava recebendo magras rendas provenientes da firma familial de que era sócio, convive com alguns intelectuais franceses, e obtém autorização das autoridades do país de acolhimento, com fundamento na obra realizada, para fazer tese de doutoramento na Sorbonne, que defende em 1970, apresentando o seu estudo De la connaissance en général à la connaissance esthétique. L’esthétique de la nature. Com essa formalidade universitária pretendia apenas tentar obter, posteriormente, uma segurança material que lhe permitisse viver com menos inquietações financeiras. Em outubro de 1975 adoece, pressentindo que não viverá muito tempo; assiste ao baptizado, no Porto, da neta recém-nascida, e despede-se da família, morrendo conformado, com toda a serenidade, em 15 de abril de 1976, em Paris. Não quizera morrer na pátria que ele logo considerara estar sendo submetida, desde 1974, a um processo político que a levava inevitavelmente ao seu «fim histórico», como nação independente com sua significação no processo histórico.

 

O ESTETA, O FILÓSOFO, O POETA

            Mantendo-se sempre afastado de capelas e grupos ideológicos e da propaganda organizada pelo elogio mútuo, recusava para si ou para quem pudesse dele aproximar-se o «que em regra leva à formação dos grupos», militando contra o fenómeno gregário, defendendo a «realidade dos melhores valores», associando à superioridade intelectual, a superioridade moral ― «sem a qual tudo redunda numa mistificação». Amorim de Carvalho construiu, precocemente, a partir dos anos trinta do passado século, uma sistematização da teoria da estética verdadeiramente notável, objectiva, científica e filosoficamente fundamentada. Pugnou pelo reconhecimento «de um sentido de transèpocalidade e de transnacionalidade» dos valores estéticos e filosóficos ; utilizou métodos de objectividade crítica que eram novos na literatura portuguesa; afirmou-se como uma das mais notáveis compleições críticas do país: «talvez em nenhum país ― e contemporaneamente ― o modernismo houvesse tido uma crítica tão constante, com objectividade, com fundamentação científica e com enquadramento filosófico» como a que sustentou em Portugal. Discutindo o problema da filosofia em Portugal, propôs uma «pedagogia filosófica» do pensar português, divergindo profundamente do movimento que se auto-intitulou «filosofia portuguesa» e que propunha teses consideradas, pelo filósofo, insustentáveis para uma correcta interpretação do processo histórico-cultural português. Procurou conciliar a «hipótese metafísica» com o «facto positivo» («positivismo metafísico»); formulou uma teoria das elites e apelou para a «revisão axiológica» dos direitos do Homem; atente-se também nos seus conceitos de Nada, Tempo e Espaço, de «absolutidade de objectividade» do sou, de «superdeterminação» e «subdeterminação», de «qualização» e de «dialéctica mononómica», numa e para uma ontologia fortemente marcada pela afirmação dos «valores reais». Na criação poética, trouxe uma originalidade incontestável e uma beleza nova à literatura de expressão portuguesa (vid. Amorim de Carvalho, Depoimento para a história crítica do modernismo em Portugal, «Nova Renascença», Porto, n 13, janeiro-março de 1984, págs. 21 e segs.); e se considerarmos as «diversas características mentais que, no conjunto, definem as compleições poéticas criadoras de largas formas poemáticas ou de largo pensamento poético em que se reflectem as eternas inquietações humanas e universalistas, e em que a poesia está intimamente ligada ao pensamento para atingir a ressonância épica ou filosófica de uma concepção do mundo e da vida», conferindo aos poemas (pelas temáticas e teses de universalidade humana) «o sentido de uma poesia mundial», Amorim de Carvalho coloca-se, na continuidade de Camões, Antero, Junqueiro e Pascoaes, entre os grandes poetas de expressão portuguesa. Também na opinião do prof. Georges Le Gentil — e como este lusitanista francês afirmou insistentemente em carta endereçada ao Autor aqui biografado —, a obra poética de Amorim de Carvalho reatou com a tradição da grande poesia da Escola de Coimbra (cf. o Depoimento supracitado). Em nenhum daqueles poetas, no entanto, a poesia atingiu tão alta densidade filosófica aliada à beleza formal como em Amorim de Carvalho. E também em nenhum outro poeta de expressão portuguesa, a problemática do amor teve a intensidade, a dimensão filosófica e a originalidade que ele lhe imprimiu.

 

TEORIA DA VERSIFICAÇÃO

            Como esteta, não se limitou à análise crítica e aos estudos relativos à teoria da literatura em geral, validados, uma e outros, pelos fundamentos filosóficos e científicos que lhes deu. Também foi ele o atento analista e o teorizador da versificação, sistematizando-a com objectividade e inegável sensibilidade poética ― rompendo com arcaísmos, imprecisões, conceitos e preconceitos inadequados para uma aceitável compreensão e interpretação dos ritmos verbais em qualquer idioma: seus estudos estão marcados pela inconfundível originalidade do Autor. Logo nos primeiros escritos teóricos conhecidos, nos princípios dos anos trinta, é patente o seu interesse pela versificação. Consciente da importância de seus trabalhos neste domínio do conhecimento estético, escreveu Amorim de Carvalho, em 1974, no prefácio à Teoria geral da versificação, já há muito concluída: «Este livro não é […] o fruto apenas do meu estudo vivido das obras dos outros poetas; é também o fruto da experiência vividíssima da minha própria criação [poética]». Com, no seu conjunto, uma obra ímpar em qualquer país latino, dando à versificação estatuto de ciência, não exita Amorim de Carvalho em afirmar que não encontrou noutros autores ― com excepção de uma, mas incorrectamente formulada ― nenhuma das leis por ele enunciadas em seus trabalhos sobre versificação publicados desde a primeira metade do século passado. Impressionante é a construção interpretativa levantada, pelo crítico português, à volta do que ele denominou «lei da elisão rítmica». E tudo isso, «num porfioso e verdadeiro trabalho laboratorial», fazendo experiências com os versos, compondo versos experimentais, alterando-lhes a estrutura interna, etc. O conjunto da sua obra sobre versificação tem uma significação que a transcende, pois está «intimamente ligada ― escrevia Amorim de Carvalho ― à minha obra de poeta e à posição que, como poeta e crítico mantive e mantenho» em divergência constante, firme e fundamentada das falsas teses da «modernidade» a que o esteta opôs os conceitos de «transèpocalidade» e de «actualidade permanente».

 

CONCLUSÕES

            À guisa de conclusão, oferece-nos afirmar que se Amorim de Carvalho não tivesse estado presente no panorama cultural, na história literária, no pensamento estético e filosófico da sua época, teria esse facto resultado num vazio incomensurável que estaria, consequentemente, na origem duma insuportável e definitiva pobreza mental pela ausência de uma atitude, de uma faceta da inteligência portuguesa que só ele sustentou, delineou ou preencheu. A «arquitectónica didáctica» que se fizer do seu pensamento terá que considerar que esse pensamento se manifesta já na poesia, se explicita e se sistematiza na sua estética e nos estudos de crítica literária, prolongando-se e afirmando-se nos trabalhos de reflexão filosófica propriamente dita ― cuja originalidade e riqueza devem ser consideradas numa avaliação objectiva do conjunto da vasta obra de Amorim de Carvalho . Na Biblioteca e no Arquivo da Casa Amorim de Carvalho, no Porto, conservam-se, respectivamente, os livros que lhe pertenceram ou que lhe fazem referência, e um grande número de documentos que lhe dizem respeito.